Jornada ao fim da Terra

Cheguei ao Cabo Finisterre, na costa atlântica da Espanha, com três objetivos claros:

1) Queimar uma blusa que usei na peregrinação em 2002 - ritual de renovação executado por todos os peregrinos que decidem terminar seu Caminho em Finisterre.

2) Encontrar uma concha vieira - símbolo do Caminho de Santiago.

3) Assistir ao pôr-do-sol.

As coisas não saíram exatamente como o programado.

Antes do descobrimento da América, no tempo em que se achava que a Terra era plana, o Cabo de Finisterre era o ponto mais ocidental da Europa, e o mais longe que se podia chegar no mundo conhecido. No horizonte, estava o fim da terra, um penhasco infinito por onde o mar derramava e onde o sol morria todos os dias.

Muitos séculos antes de ser uma rota católica, o caminho que leva a Santiago de Compostela já era percorrido pelos celtas, que vinham até a costa espanhola para assistir ao sol mergulhar nas águas do Atlântico.

O Sol deve ter achado o fim do mundo muito longe para me acompanhar, pois desembarquei em Finisterre sob um céu de nuvens cinzentas e gorduchas. Não era o azul que eu esperava, mas também não era nada da tempestade que tinham me prevenido. E o mar que batiza a região de Costa da Morte, por causa das ondas que chegam a 8 metros de altura e jogam navios contra os rochedos, era um manso lago azul. Sorte média, vai...

Passei no supermercado para comprar um bocadillo de jamón para o almoço e fósforos para o ritual de renovação. Fui a pé até o farol e olhei para o fim do mundo. O vento estava de arrastar a gente. Encontrei uma pedra mais ou menos protegida, tirei a blusa da mochila e me preparei para a fogueira.

Sonho meu. Risquei uma caixa de fósforos inteira e o máximo que consegui foi um furinho de 2mm na blusa. Uma das coisas que aprendi durante o Caminho era a não me queixar e ficar feliz por as coisas serem exatamente como são. Já que a blusa não quer pegar fogo, continuo eu mesma. Paciência.

O pessoal que trabalha no farol disse que seria quase impossível eu encontrar uma concha vieira nos dias de hoje, melhor seria comprá-la em uma das lojinhas do povoado. Decidida a não falhar na missão número 2 de jeito nenhum, fui a pé até a praia do outro lado do pueblo, a uns 7 km do farol e vi pessoas colhendo conchas. Há muitas, me disse uma mulher. As pessoas no farol me disseram que não existiam por costume. Às vezes as pessoas têm tanto medo de falhar que colocam o “não” como pressuposto e deixam de tentar qualquer coisa.

Trouxe três vieiras comigo.

Última parte da missão: pôr-do-sol. Antes das seis da tarde o tempo evoluiu para um “parcialmente nublado” e me toquei para o farol de novo. Cheguei a tempo de ver frestas alaranjadas nas nuvens, mas era óbvio que não seria possível ver o sol. Fazer o quê? Fiquei feliz de não ter pego a tempestade.

Estava feliz de ter chegado ao Km Zero do Caminho de Santiago, mas ainda volto a Finisterre para ver o sol.

Veja as fotos:
Finisterre

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