Tá, e daí?

O Denke ich... está entrando em férias. Fico no Brasil até o Ano Novo e depois volto para mais três meses de estágio na Deutsche Welle em Bonn, desta vez na redação da rádio em português para a África.

Depois desses quatro meses na Alemanha, cheguei à conclusão de que a primeira impressão não é a que fica. Apesar de no início a adaptação ter sido difícil, acabei me acostumando com a minha casa, minha rotina, fiz amigos e, quando voltei da Espanha primeiro para Düsseldorf e depois para o Brasil, tive a sensação de estar duplamente em casa.

Por outro lado, sinto que nunca mais vou me sentir 100% em casa outra vez. Quando estiver lá vou sentir saudades das coisas daqui e vice-versa. Outras pessoas me disseram que sentem o mesmo, e, ao que parece, esse é um processo sem volta. Mas essa não é uma sensação ruim, é só diferente. No voo da Tam para Floripa vi uma propaganda que dizia "Não é o lugar que nos faz sentir em casa. São as pessoas."

Minha casa ficou maior.

Bis bald!

O blog bombou!

Estou me organizando para deixar o Denke ich... de férias até eu voltar para a Alemanha, depois do Ano Novo. Fiz um balanço de encerramento com as estatísticas do Google Analytics e o blog, que foi criado como um hobby, acabou se tornando um projeto muito bem sucedido.

Desde 1º de julho, quando cheguei na Alemanha, até hoje, 18/11, o Denke ich... recebeu 6.151 visitas em 46 países!

Tudo bem que tem blogueiro que recebe mais visitas do que isso por dia, mas pra um blog pessoal e amador, fiquei toda faceira.

Muito obrigada aos que me leram de vez em quando por aqui. Espero que vocês tenham se divertido com o Denke ich... tanto quanto eu!

Um pouquinho de Brasil, ia-iá...

Cheguei em casa. O Brasil me recebeu com uma fila colossal na alfândega e oito horas de espera pela minha conexão para Florianópolis. E daí? Pelo menos tem pão de queijo. Comi dois.

Jornada ao fim da Terra

Cheguei ao Cabo Finisterre, na costa atlântica da Espanha, com três objetivos claros:

1) Queimar uma blusa que usei na peregrinação em 2002 - ritual de renovação executado por todos os peregrinos que decidem terminar seu Caminho em Finisterre.

2) Encontrar uma concha vieira - símbolo do Caminho de Santiago.

3) Assistir ao pôr-do-sol.

As coisas não saíram exatamente como o programado.

Antes do descobrimento da América, no tempo em que se achava que a Terra era plana, o Cabo de Finisterre era o ponto mais ocidental da Europa, e o mais longe que se podia chegar no mundo conhecido. No horizonte, estava o fim da terra, um penhasco infinito por onde o mar derramava e onde o sol morria todos os dias.

Muitos séculos antes de ser uma rota católica, o caminho que leva a Santiago de Compostela já era percorrido pelos celtas, que vinham até a costa espanhola para assistir ao sol mergulhar nas águas do Atlântico.

O Sol deve ter achado o fim do mundo muito longe para me acompanhar, pois desembarquei em Finisterre sob um céu de nuvens cinzentas e gorduchas. Não era o azul que eu esperava, mas também não era nada da tempestade que tinham me prevenido. E o mar que batiza a região de Costa da Morte, por causa das ondas que chegam a 8 metros de altura e jogam navios contra os rochedos, era um manso lago azul. Sorte média, vai...

Passei no supermercado para comprar um bocadillo de jamón para o almoço e fósforos para o ritual de renovação. Fui a pé até o farol e olhei para o fim do mundo. O vento estava de arrastar a gente. Encontrei uma pedra mais ou menos protegida, tirei a blusa da mochila e me preparei para a fogueira.

Sonho meu. Risquei uma caixa de fósforos inteira e o máximo que consegui foi um furinho de 2mm na blusa. Uma das coisas que aprendi durante o Caminho era a não me queixar e ficar feliz por as coisas serem exatamente como são. Já que a blusa não quer pegar fogo, continuo eu mesma. Paciência.

O pessoal que trabalha no farol disse que seria quase impossível eu encontrar uma concha vieira nos dias de hoje, melhor seria comprá-la em uma das lojinhas do povoado. Decidida a não falhar na missão número 2 de jeito nenhum, fui a pé até a praia do outro lado do pueblo, a uns 7 km do farol e vi pessoas colhendo conchas. Há muitas, me disse uma mulher. As pessoas no farol me disseram que não existiam por costume. Às vezes as pessoas têm tanto medo de falhar que colocam o “não” como pressuposto e deixam de tentar qualquer coisa.

Trouxe três vieiras comigo.

Última parte da missão: pôr-do-sol. Antes das seis da tarde o tempo evoluiu para um “parcialmente nublado” e me toquei para o farol de novo. Cheguei a tempo de ver frestas alaranjadas nas nuvens, mas era óbvio que não seria possível ver o sol. Fazer o quê? Fiquei feliz de não ter pego a tempestade.

Estava feliz de ter chegado ao Km Zero do Caminho de Santiago, mas ainda volto a Finisterre para ver o sol.

Veja as fotos:
Finisterre

Santiago de Compostela 7 anos depois

Bastou pisar na Praça do Obradoiro para perceber que eu continuo no mesmo Caminho. A última vez que estive em Santiago de Compostela foi no dia 5 de julho de 2002, depois de caminhar mais de 800 km desde a França. Dessa vez cheguei de avião, mas o Caminho era o mesmo.

Eu estava com as mesmas botas e a mesma mochila da minha peregrinação, então as pessoas achavam que eu tinha recém terminado o Caminho de Santiago. Se diz que depois de percorrer o Caminho uma vez, somos para sempre peregrinos, então não me constrangi de ser confundida com um.

Fiquei mais de uma hora dentro da catedral e tirei todas as fotos que tive vontade - na última vez vim com câmera de filme. O pórtico onde os peregrinos colocam a mão e dizem “Senhor, eu creio”, como símbolo do final do Caminho, estava interditado. Tirei fotos dos cinco buracos profundos que peregrinos desde mil anos esculpiram no mármore. Somos como água que bate na pedra, pensei...

Em Madrid soube que o Seminário Menor, onde eu tinha dormido da última vez estava fechado desde 1 de novembro. Fiquei preocupada de não encontrar lugar para dormir e cheguei até a pensar em cancelar a viagem. Aí me lembrei que sou peregrina, botei a mochila nas costas e o pé na estrada. Tudo sempre dá certo.

Ainda hoje Santiago me apronta das dele. Eu já ia para a saída da cidade em busca de outro albergue quando achei melhor voltar até o centro de informações turísticas. Uma peregrina estava lá para saber como chegar à Corunha. Ela era alemã e está no Caminho há cinco meses. Começou na porta de casa, perto de Colônia, conheceu os picos a Europa, foi a Finisterre e agora está voltando para casa, quer chegar até o Natal.

Eu já ia saindo quando ela me convidou para o jantar dos peregrinos no Parador dos Reis Católicos. Eu tinha lido no livro do Máqui - que fez o Caminho em 1990 - que todas as noites os primeiros 10 peregrinos a chegar tinham direito a uma refeição gratuita no hotel de luxo. Em 2002 eu nem tentei, porque a chance de ser uma dos dez primeiros era remota. Dessa vez, fui de penetra e jantei de graça no parador.

Sete anos depois eu estava em uma mesa com seis peregrinos, dormi no refúgio do Monte do Gozo e até ganhei um sello (carimbo) no meu livrinho de anotações, já que não tinha a minha credencial. Foi como se o tempo não tivesse passado.

Gracias, Santiago.

Veja as fotos:
Santiago de Compostela

“Ay me voy otra vez, ay te dejo Madrid...”

Madrid continuava vermelha como em 2002, mas eu não lembrava que era tão árida. A região é cortada por uma serra pedregosa que vai de Portugal até o Mediterrâneo, segundo me contou o Nas. É linda.

Fiquei na casa de um casal de velhos amigos, a Ana e o Nas, (a amizade é velha, eles, não... eheh). Eles me levaram para conhecer toda a cidade, o que foi muito intenso, porque o Nas é uma enciclopédia ambulante, e aprendi muito sobre Madrid. (Obrigada, queridos!). Visitei o Museu do Prado, conheci o parque onde os madrilenhos passam as tardes de domingo e almocei em um restaurante brasileiro com churrasco, arroz, feijão e farofa. Foi a glória.

Algumas coisas mudaram por lá. No aeroporto de Barajas agora é proibido fumar (ainda bem que não fumo mais), mas tem área reservada para fumantes, e por toda a Espanha bares e restaurantes penduram na janela a plaquinha: “Se permite fumar”. Lei é lei, cultura é cultura.

Veja as fotos:

Madrid

Um sofá em Paris

Quando aterrissei no aeroporto Paris Orly recebi um SMS da Mailys, couchsurfer que me hospedou durante quatro dias. A mensagem veio com o endereço, a senha para entrar no condomínio e os clássicos dizeres “as chaves estão debaixo do capacho”. Eu ri.

Ela é amiga do François, então cheguei com uma espécie de salvo conduto, mesmo assim a confiança me surpreendeu. Na verdade a Mailys me deu muito mais do que um sofá, deu um quarto só para mim, me emprestou um notebook com internet e – pasme – tinha um carregador para o celular que o Roby me emprestou em Roma (só me dei conta de que não tinha como carregar o aparelho quando já estava no avião).

Paris é uma das cidades mais bonitas que já conheci. A maioria dos pontos turísticos está ao longo do Rio Sena, então se pode ver desde o Arco do Triunfo até a Catedral de Notre Dame – passando pelo Museu do Louvre – de uma das dezenas de pontes que existem no centro da cidade. E a torre, linda, se vê praticamente de qualquer lugar.

A previsão do tempo marcava chuva para os quatro dias que estive em Paris, e para os dias em Roma também, mas se eu tive uma hora de chuva ao todo foi muito (sortuda de uma figa). O François diz que eu carrego o sol comigo, porque o tempo sempre melhora quando eu chego, diz ele. Verdade ou não, o fato é que o sol me acompanhou na maior parte da viagem, a despeito dos institutos de meteorologia.

As fotos já estão na galeria. Vou tentar colocar todas as legendas este ano ainda... eheh

Paris

Como ele sabia?

Eu perdida, pra variar, entrei num café para perguntar o caminho para o Pantheon em Paris. Falei a única coisa que consigo dizer em francês sem gaguejar:

- Pardon, je ne parle pas français, parlez vous anglais?

O tio do bar:

- Brésil?

Eu:

- Ja!

Ele me mostrou o caminho e andei os 500 metros até o Pantheon com duas perguntas martelando na cabeça: Como ele sabia que eu era brasileira? E por que eu respondi em alemão?

Mitos e verdades sobre Paris

Mito: Os parisienses são mal educados. Eu pedi informação para muitas pessoas e todas me trataram muito bem. E não tive dificuldade para falar inglês com ninguém.

Verdade: Paris é cara. Eu paguei 7,5 euros por quatro pilhas, uma facada. As benditas duraram só um dia e acabaram no exato momento em que eu cheguei à Torre Eifel. A Coca-Cola de 200 ml custa 4 euros, assim como o café. E é como na Itália, se você toma no balcão, é um preço, mas se senta à mesa, pode sair bem mais caro. As velas – que na Alemanha custam 0,50 centavos e no supermercado 0,05 – em Notre Dame saem por 2 euros, com a provocativa plaquinha: “pratique a sua devoção”. Sei... aí eu tava lá economizando cada centavo, quando me chega um menino da Unicef com uma lista para assinar. Assinei e, quando vi, tinha que pagar. Gastei mais com a Unicef do que com o meu almoço. Scheisse...

Ir a Roma e não ver o Papa

Já que estar em Roma e não visitar o Bento XVI é como ir a Roma e não ver o Papa, levantamos cedo no domingo (depois da festa de Haloween) e nos tocamos pro Vaticano. chegamos lá 5 minutos depois que o Papa tinha ido embora. A bênção dura só 20 minutos, a maior mordomia...

Falando honestamente, eu não gosto muito desse papa, entao foi bom chegar atrasada, assim me poupou um gesto de hipocrisia. Sem contar que no final daquele dia vi coisa muito melhor.

Fomos ao Giardino degli Aranci, jardim no alto de um morro com vista panorâmica de Roma
. Três ou quatro bandos de pássaros faziam a maior algazarra para encontrar um galho para dormir. Eles voavam em ondas, ora mergulhando, ora formando bolhas gigantescas de pontinhos pretos no ar. O barulho eu imagino que se podia ouvir a quilômetros. O sol estava se pondo, e fiquei uma boa meia hora assistindo ao voo sincronizado contra o céu cor-de-laranja.

Aí pensei: Quem precisa do Papa quando se pode ver Deus?

Veja as fotos:
Roma

Siciliano maledeto!

Às vezes eu me sinto constrangida por ter tanta sorte. Em Roma tive a alegria de conhecer, através do portal CouchSurfing, um siciliano chamado Roby Sorte. Uma semana antes de viajar, depois de mandar algumas mensagens sem sucesso pedindo sofás, escrevi para a comunidade "CS Roma - SOS Last Minute" e recebi mais de uma dezena de mensagens de pessoas se oferecendo para me hospedar.

Escolhi o Roby Sorte, porque ele ia estar com outros amigos e foi um dos poucos que me escreveu sem uma cantada intrínseca. E também porque o sobrenome dele me pareceu um sinal. O Roby foi meu anjo da guarda em Roma. Me buscou no aeroporto, me levou pra conhecer a cidade inteira, pra comer massa e pizza baratinhas, me apresentou um escritor e me fez perder uns dois quilos de tanto dar risada. Sem ele meus dias em Roma não teriam sido tão fantásticos. E o sofá nem era dele, pousamos um dia na casa de uma amiga dele e outros dois na casa de outra amiga. Todo mundo muito gente boa.

O siciliano era hilário, assim, do tipo Jim Carey (ele levava uma bisnaga com apito no bolso pra dar susto nas pessoas). Ele é coordenador de grupos de intercâmbio do Programa Erasmus Mundus e da AIESEC. E como bom siciliano, a primeira coisa que fez foi me dar uma carteirinha falsa da Erasmus pra eu entrar de graça em uma festa de Halloween - aliás, uma das melhores festas que já fui na vida. Eta povo que sabe se divertir, esse.

Aí como eu tinha esquecido meu celular na Alemanha, o Roby me emprestou o segundo dele - com crédito - para eu levar até o final da minha viagem. Agora me diz, quando alguém que te conheceu anteontem vai te emprestar o próprio celular por duas semanas para você mandar depois de volta pelo correio para a Sicília? Ele falou: "Pode levar, você precisa mais do que eu".

Grazie mille, amico!