Questão de contexto

Uma das melhores disciplinas que tenho atualmente no mestrado é a de Comunicação Intercultural. Ela melhorou muito a minha vida na Alemanha de uns meses para cá.

Descobri a fantástica diferença entre culturas de alto e baixo contexto (high and low context), conceito desenvolvido pelo antropólogo Edward T. Hall. Para explicar de forma bem resumida, pessoas de diferentes culturas se comunicam de forma diferente.

Em uma cultura de alto contexto, grande parte do que está sendo comunicado é feito de forma não-verbal. A informação central é dita explicitamente, e o resto supõe-se que o interlocutor saiba ou deduza, com base no contexto da conversa. O Brasil está mais para alto contexto. É por isso que quando você está dirigindo em um túnel e lê a placa "Luzes" na saída, você sabe o que fazer.
Em culturas de baixo contexto, como a Alemanha, por exemplo, tudo tem que ser dito, tim-tim por tim-tim. Eles assumem que o que não é dito verbalmente não é importante.

É por isso que uma das minhas professoras alemãs incluiu o tópico "agradeça pelo tempo de seus entrevistados depois da entrevista" em uma apresentação de PowerPoint.

Para mim, que venho de uma cultura de alto contexto, isso é praticamente uma ofensa. Ora, eu sei que eu tenho que agradecer, não precisa me dizer, eu não sou mal-educada, pensei.

Agora eu sei que a minha professora vem de uma cultura de mais baixo contexto do que a minha. Ela não fez por mal.

Isso também explica por que, embora a maioria das bibliotecas no mundo inteiro seja muito parecida, nós tivemos duas excursões de duas horas cada nas bibliotecas da Universidade de Bonn e da Universidade de Ciências Aplicadas Bonn-Rhein-Sieg neste semestre - para nos ensinar como utilizar o sistema e pegar livros emprestados.

No início eu achei que eles achavam que nós fôssemos retardados, só por sermos estrangeiros. Depois uma amiga alemã me explicou que todos os alunos alemães passam pelas tal Führungen (excursões) em cada biblioteca nova que frequentam.

A Deutsche Welle também tem dezenas de cursos de dois dias para ensinar coisas que uma pessoa aprenderia sozinha com um manual e meia hora fuçando no sistema.

É tudo o tal do low context do Hall.

10 comentários:

  1. Francis,

    Por aqui é assim tb...As pessoas tendem a mandar cartões de agradecimento quando alguém faz algo que pra eles foi de imensa consideração.Assim como vc, se alguém me disser "thanks"- já está de bom tamanho, levei aquilo à sério...

    Mas como tb vivo numa cultura de baixo contexto, tem que se explicar tudo...Ontem mesmo estava conversando com o marido e expliquei que a frase "vc estava demorando", dependo da entonação no português, não é grosseira.

    Ex:Eles me disseram que a espera por uma mesa no restaurante iria ser de 35 min, pois como vc estava demorando,deduzi que não havia vaga no estacionamento e seria melhor que fóssemos comer em outro lugar.

    Em inglês eu não posso dizer assim, pq o "como vc estava demorando" denota que a culpa é da pessoa que não estava lá na hora....

    Cultura é uma coisa, viu?!

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  2. Adorei, Fran. Acho que essa coisa de dizer tudo a toda hora cansa um pouco. E como é complicado, às vezes, lidar com tudo isso...

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  3. Eles tendem a ser low e slow algumas vezes. Tem que ser tudo nos minimos detalhes, caso contrário, corre-se o risco de ouvir: Voce não disse, então...

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  4. Eu também estudo comunicacao intercultural e uma das coisas que aprendi que mais fez sentido foi a questao do humor. Tanto a dimensao de low context quanto o alto valor de uncertainty avoidance influenciam no humor alemao. Ou na falta deste, rs. Como eles "querer" saber de tudo tim tim por tim tim, nao "entendem" tao bem humor negro e/ou sarcastico. Se vc comparar os valores de UA dos britanicos por ex, vera que é em mais baixo. O que explica muito o humor tipico deles. Um artigo legal sobre o assunto é
    http://www.guardian.co.uk/world/2006/may/23/germany.features11
    :)

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  5. Nossa, muito interessante essa teoria dos contextos low e high. Explica realmente muita coisa, inclusive essa mania de "Beratung" que alemão tem!
    Vou procurar esse livro!

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  6. Achei bem interessante este aprendizado, é uma forma de entender melhor outras culturas sem julgamentos antecipados e uma forma de integração cultural diminuindo as diferenças.Deverá chegar o dia em exista um bom equilibrio entre todas as culturas.

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  7. Muito legal, vivi 2 anos na Holanda e quando voltei ao Brasil percebi que nos Brasileiros não estamos acostumados a responder o que nos perguntam e sim o que nós sentimos.

    Quando a porta não abre vc pergunta:

    Quando alguém mexeu na porta e ela parou de funcionar?

    Resposta:
    Eu nunca gostei dessa casa mesmo.

    Conclusão, é preciso muito jeitinho para conseguir informações simples!

    Valeu pelo post, vou me cadastrar para ver futuros posts.


    Saudações Catarinenses
    Joni
    FB - Joni Hoppen

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  8. Se eles entendem o dito neste baixo contexto, está ótimo. O pior no Brasil é a mania de "extender" o assunto, extrapolar e perder o foco. E noto que aqui as pessoas estão começando a precisar de tudo explicadinho, mas por baixo desenvolvimento de linguagem ou por preguiça mental mesmo. Ninguém lê nada e quer tudo mastigado. Acredito que gente assim na Alemanha sofre horrores!

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  9. Também estou estudando no meu MBA de Marketing sobre as diferenças culturais e achei fantástico esse conceito. Você deu ótimos exemplos.

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  10. Um livro muito bom do Edward T. Hall é o "The Silent Language". Pequeno, mas intenso.

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