Árvore de presente para a namorada

A tradição da Maibaum (árvore de maio) é celebrada todos os anos, na virada do dia 30 de abril para 1º de maio, desde a Idade Média. Uma 'alemanice' típica da região do Reno.

Funciona assim: na noite de 30 de maio as moças solteiras saem para dançar, na tradicional Tanz in den Mai (dança maio adentro) e os rapazes vão para o meio da floresta, onde procuram uma árvore - ou galho grande - para presentear sua amada.

Na manhã de 1º de maio, as moças acordam com uma árvore de pelo menos três metros amarrada à parede ou a um poste em frente à sua casa, toda enfeitada com fitas coloridas e com o nome delas escrito. O admirador, entretanto, permanece secreto, e só a fofoca ao longo do dia é que vai dar pistas de quem amarrou Maibaum na casa de quem.

A tradição tem sido responsável por muitos e muitos casamentos há séculos. Na Idade Média, vivendo em pequenos povoados cristãos, namorar não era lá muito fácil, e as festas de maio muitas vezes eram a única forma de achar um pretendente.

Até hoje a história da Maibaum é um frisson entre as meninas. Principalmente em cidades pequenas, mas também já vi muita Maibaum em Colônia e Bonn no ano passado. Até minha colega Anna, que namora há três anos, espera ganhar uma, mesmo que o admirador não seja mais secreto.

Eu não vou ganhar Maibaum porque o meu namorado é francês. Em vez de árvore, ganho crepe, cidra e queijo de cheiro duvidoso. Hehe.

Mail de segunda-feira

Toda semana recebo o "Mail de Segunda-feira" do Carlos Martins, natural de Lisboa, funcionário da Deutsche Welle há mais de 35 anos e uma das pessoas mais fofas que já conheci.

O mail de segunda-feira conta curiosidades sobre a Alemanha ou Portugal e as histórias são geniais. Com a permissão do Carlitos, reproduzo um deles:

Quando eu cheguei à Alemanha, já lá vão quase mil anos, houve uma coisa que me espantou mais do que a impressionante catedral de Colónia, verdadeira praça-forte de Deus, ou a rede apertada de auto-estradas onde formigueiram a qualquer hora do dia e da noite milhões de carros. Não, aquilo que me fez realmente ficar especado no meio da rua foi ver duas crianças que ainda mal sabiam andar, despedirem-se uma da outra com um aperto de mão, imitando as mães que tinham acabado de fazer o mesmo. Eu já ia nos 26 anos e nunca tinha visto duas crianças a cumprimentar-se daquela maneira.

Percebi mais tarde que não fora um caso isolado e que havia melhor (pior!) neste capítulo dos contactos físicos: filhos e filhas que saúdam assim, com um aperto de mão, os seus próprios pais. É difícil de acreditar, não é? Mas é a pura da verdade, verificada pessoalmente dezenas de vezes. Aqui há qualquer coisa que não está bem… Mas o quê?

Anúncio no maior jornal de Colónia, o Kölner Stadt Anzeiger, na quarta-feira passada: "Loira simpática, com um pulôver às riscas brancas e azuis, mini-saia vermelha. Estava no Domingo à noite no restaurante tal (…) Por favor entre em contacto comigo para o número tal deste jornal".

Ou poucos dias antes, na Stadt Revue, uma das muitas novas revistas "flipadas" que aparecem e desaparecem com a rapidez de cogumelos naquela cidade: "Eh tu, tipo moreno por volta dos 40 anos, alto, forte e bonito; tinhas uma camisa às riscas verdes e pretas e calças pretas de cabedal. Estavas na parada do eléctrico em Neumarkt às 20h15 de sábado passado e apanhaste o 4. Apaixonei-me por ti, não consigo esquecer-te, nem tenho dormido bem desde então. Escreve para o número tal deste jornal, quero voltar a ver-te".

Anúncios como estes são coisa tão normal nos jornais alemães que pelos vistos só um estrangeiro é que os acha curiosos. Não teria sido mais fácil dirigir directamente a palavra à tal loira da mini-saia ou ao "tipo boneco" na parada do eléctrico? Muitos preferem este complicado e dispendioso desvio do anúncio no jornal, com poucas hipóteses aliás de vir a ser lido pelo destinatário interessante – e esperemos que também interessado.

Os alemães que têm termos para tudo, também têm naturalmente uma palavra para designar este tipo de pessoas: "kontaktarm", ou seja alguém que tem dificuldade em estabelecer contactos, em sair do seu casulo. Alguém que passa uma semana metido connosco no mesmo compartimento do Trans Siberiano entre Moscovo e Vladivostoc e que não vai além do "este lugar está livre?" inicial. É provável – não, é evidente – que entre esta dificuldade e o pouco contacto físico já nos primeiros anos de vida, existe uma relação estreita. Que muitas vezes provoca uma ralação larga.

Abraço