O preço do desenvolvimento

A coisa que mais me revolta no mundo é injustiça. A segunda é hipocrisia. E ambas sentam à mesa conosco praticamente todos os dias. Estou falando disso porque semana passada descobri alguns dados intrigantes sobre sonegação de impostos em países pobres.

A quantidade de dinheiro desviado de países africanos para paraísos fiscais como a Suíça, Liechtenstein ou as Ilhas Jersey,  por exemplo, equivale a dez vezes o valor "doado" pela Europa à África como "ajuda humanitária e para o desenvolvimento".

Discutimos isso durante o Global Media Forum, em um painel organizado pela ONG alemã ATTAC. E falamos sobre o tamanho do dano que essas operações - legais aos olhos do livre mercado - causam aos países em desenvolvimento, enquanto os suíços constroem resorts nos Alpes e se escondem atrás da fajuta neutralidade.

No painel estava um cidadão de Gana que trabalhou para várias empresas que montam sedes fantasmas em paraísos fiscais para não pagar impostos nos países onde de fato produzem. E ele contou que o processo é muito simples.

As empresas fecham contratos com os produtores para que lhes forneçam matéria-prima a baixo preço durante, por exemplo, três anos. Com os contratos, os produtores não podem cobrar mais pelo produto, mesmo que o preço no mercado internacional tenha subido vertiginosamente. De fato o preço geralmente sobe, porque depois de fechar os contratos com os produtores, essas empresas especulam nas bolsas internacionais para fazerem o valor dessa matéria-prima subir.

E provavelmente os juros que eu recebo pela minha poupança têm parte desse dinheiro, porque os bancos alemães, assim como todos os outros, usam o nosso dinheiro para especular no preço das commodities.

É por essas e outras que o preço dos alimentos dispara, como aconteceu em 2008, levando mais de 100 milhões de pessoas no mundo a passar fome. Os países mais pobres geralmente são grandes produtores de monoculturas e precisam importar a maior parte do que comem, o que os deixa vulneráveis á flutuação de preços internacionais.

Eu escrevi tudo isso para dizer: Os países em desenvolvimento não precisam de ajuda humanitária. Precisam de justiça.

Alemanha para inglês ver

De uns tempos para cá tenho observado alguns comportamentos interessantes na sociedade alemã. E como o Denke ich... não tem a menor intenção de ser chapa-branca, escrevo. Uma das coisas que me surpreendeu é ver o quanto os alemães se preocupam com as aparências.

O escândalo envolvendo o ex-ministro da Defesa Karl-Theodor zu Guttenberg, que se descobriu ter plagiado sua tese de doutorado, é um ótimo exemplo disso. A deputada do Parlamento Europeu Silvana Koch-Mehrin também teve seu título de doutora cassado recentemente por plágio. Para muitas pessoas neste país, ostentar um título de doutor é mais importante do que fazer a pesquisa. Aliás, na Alemanha, o título de doutor é incorporado ao nome próprio.

Eu lembro uma vez no final do ano passado quando fomos a uma conferência perto de Munique e um dos palestrantes era um brasileiro que morava nos Estados Unidos e trabalhava no Banco Mundial. Quando ele chegou, a moça na recepção chamou-o de "Doutor Fulano" e ele ficou todo sem jeito, dizendo "não precisa me chamar de doutor, imagina". Aí eu perguntei se ele tinha feito doutorado e ele respondeu que sim. Eu expliquei a ele que os alemães não sabem lidar muito bem com humildade, e que se ele pedisse pra não ser chamado de doutor, provavelmente iriam pensar que ele não tem doutorado – e reduzir o grau de deferência.

Na minha interpretação, essas diferenças de comportamento estão profundamente ligadas a fatores socioeconômicos dos dois países. No Brasil, onde apenas 10% da população têm curso superior, os doutores não costumam sair por aí se gabando do seu título, para não parecerem esnobes e constrangerem as pessoas com menor grau de escolaridade.

Na Alemanha, 43% da população têm nível superior. E as que não têm, em tese, poderiam ter, se quisessem. Então em um país onde todo mundo está mais ou menos em pé de igualdade, o resultado são mais cotoveladas por um lugar ao sol. E quem não consegue ser, tenta pelo menos parecer.

Secadora: o terror do guarda-roupa

Quase dois anos de Alemanha e ainda perco roupas para a secadora. Eu, que me criei em casa, rodeada de varais, achava um absurdo, até pouco tempo atrás, secar roupa sem sol.

Aí, quando a pessoa se muda para um apartamento minúsculo, sem varal, sem tanque e sem ralo, tem que se adaptar a uma nova rotina doméstica e aprender a lidar com a secadora de roupas.

À primeira vista parece uma maravilha: 30 minutos pra fazer o que vento+sol demoram duas horas. Você tira a roupa cheirosa, quentinha que não precisa nem passar - basta dobrar enquanto está quente - e só vai se dar conta de que a sua calça perdeu cinco centímetros no comprimento quando for vesti-la no outro dia.

Nunca me esqueço do ataque de fúria do Luciano Nagel em 2009, quando tirou sua primeira leva de camisetas da secadora de roupas do dormitório do Instituto Goethe, em Bonn. Todas acima do umbigo.

Eu, depois de também inutilizar algumas peças, comecei a ficar esperta e a não colocar mais certos tipos de tecido na secadora. Camisetas de algodão, blusas de lã e qualquer tecido elástico, por exemplo, nem pensar.

Calça jeans não tem problema (a menos que seja com nylon). Meias, toalhas, lençóis e peças de tecidos que não esticam também estão fora de perigo.

Mas cuidado: calças de linho, se forem misturadas com algodão e poliéster - como a minha calça preferida, que estraguei na semana passada - NÃO PONHA NA SECADORA.

Mestrado em "Denglish"

O texto abaixo eu escrevi para a página dos alunos
do mestrado International Media Studies (IMS), em uma seção que chamamos "IMS in Process". Para ler outras histórias e ver galerias com fotos (lindas) feitas pelos meus colegas, clique aqui.

Building knowledge between two languages

Since I started the bilingual master program International Media Studies (IMS), at the Deutsche Welle Akademie, I’ve improved somehow my English and my German, but the language I actually started speaking perfectly was “Denglish”, namely Deutsch+English. It just became part of unser Leben. We go everyday to Unterricht and talk about viele Theorien und Methoden auf Deutsch and in English, sometimes beide am gleichen Tag – not counting the Beiträge that we produce on a zweisprachige basis.

It would be helpful to have a Schalter in our heads, so at one moment we think and speak only in English und im nächsten Moment denken und sprechen wir nur auf Deutsch. Aber das ist nicht how it works. And you realize you are becoming a Denglish speaker when for instance you start writing and speaking in English like Master Yoda, putting the verbs in the end of the phrases. In serious cases you can end up writing texts like the one you are gerade reading.

It happens many times to me during the class to stop and think: “how is it in German again? Oder auf Englisch? Wait a minute, how is it in my own language, überhaupt?” But at some point you adapt to this international way of life and carry on. After all, it is like that during the classes, by reading books, by talking to your Komilitonen, and even on your Facebook timeline.


Add to this bilingual experience every imaginable accent in the world together with German and English native speakers, plus the couple of words we learn from our fellow students from 16 different nations, plus our futile – and amusing – attempts to pronounce the Chinese tones correctly and then you will know a little bit how the International Media Studies in Bonn sounds like.



Eu nas ondas curtas

Neste final de semana a minha voz deu a volta ao mundo. Viajou da Alemanha até o Sri Lanka e chegou a Florianópolis, no rádio de ondas curtas do jornalista Elmar Meurer. Ontem ele mandou um e-mail para me contar, junto com um link para o seu blog, o super interessante externalradio.blogspot.com (em inglês).

No post "DW in portuguese: compare shortwave and internet streaming", o Elmar faz uma comparação entre a qualidade da emissão em ondas curtas e a transmissão online do Jornal da Noite da DW no domingo (12/6), que eu apresentei.

A qualidade da internet é naturalmente superior, mas o que mais me impressionou foi a capacidade de alcance das ondas curtas, que chegam a praticamente qualquer lugar, desde que se tenha um aparelho de rádio simples.

Cortes de carne na Alemanha

Carne é a coisa mais difícil de se comprar no exterior, porque além dos nomes, os cortes são diferentes. Procurei os nomes alemães para as carnes que eu costumo comprar no Brasil. Como os cortes são diferentes, a correspondência é aproximada - se a receita não der certo, sorry...

Alcatra = Kugel/Nuß
Cochão-mole = Oberschale
Contrafilé = Roastbeef
Filé mignon = Filet/Lende
Maminha = Unterschale/Kluft
Paleta = Schulter/Blatt mit dickem Blattstück, falschem Filet
Picanha = Hüfte / Tafelspitz

Para conferir, dá uma olhada nas fotos:

Brasil

Fonte: carnesecia.blogspot.com

Alemanha


Fonte: fleischerei-zitzmann.de