Inscrições abertas para bolsa da Fundação Heinz-Kühn para jovens jornalistas


Pessoal, a fundação Heinz-Kühn está com as inscrições abertas para o programa de bolsas para jornalistas na Alemanha, e candidaturas brasileiras são bem-vindas.

O prazo oficial para se inscrever é até 30 de novembro, mas sei de fonte quente que se mandar até meados de dezembro ainda rola.

Precisa: ser formado em jornalismo, ter pelo menos um ano de experiência profissional, até 35 anos de idade e falar um pouquinho de alemão.

Eles oferecem: passagem de ida e volta, moradia, curso de alemão, estágio em um veículo de comunicação na Alemanha (geralmente na DW) e ajuda de custo de 700 euros por mês.

Para mais detalhes, acesse o site da Heinz-Kühn-Stiftung.

Lembra da revelação de foto em uma hora?

Pois é, não existe mais. Outro dia fui na DM* para imprimir umas fotos digitais, mas não queria aquela impressão express, em que a foto sai na hora, numa qualidade de doer. Aí selecionei a impressão premium, que, pensei, ficaria pronta em uma hora, como nos velhos tempos.

Máquinas de impressão expressa
Quando apertei o botão OK da máquina - ah, sim, é tudo self-service - saiu um cupom com um código. Nada de preço nem de hora da retirada. Li palavra por palavra pra me certificar. Não gosto muito de perguntar para funcionários, porque por aqui todo mundo acha que as pessoas nascem sabendo e aproveitam pra te dar nos dedos se o que você está perguntando já está escrito no papel.

Mas não teve jeito, tive que ir ao caixa perguntar. A mulher disse que as fotos ficariam prontas em até três dias úteis - isso foi na sexta passada. E eu: "Oi?" A moça no caixa percebeu que aquela não teria sido exatamente a minha escolha e aproveitou para me dar nos dedos:

"Quando você não sabe alguma coisa, tem que perguntar." Eu, cá comigo: "Ahã...".

Voltei hoje para buscar as fotos e descobri que:

1) Não existe mais revelação de uma hora. Ou você escolhe a expressa, que sai na hora, ou a especial, que demora três dias.

2) As fotos da impressão premium parecem tão ruins quanto as da impressão expressa. Deve ser a câmera.

* Não sei se eu já falei da DM. Tem em tudo que é canto aqui na Alemanha. É uma espécie de drogaria que vende produtos de higiene, limpeza, cosméticos, alimentação macrobiótica, energéticos - e por acaso também tem serviço de impressão de fotos digitais.

App bacana para transporte na Europa

Esses tempos baixei o Öffi, um aplicativo Android genial pra quem utiliza transporte público na Europa. Ele tem acesso ao sistema de transporte de dezenas de cidades em vários países (tem até de Bonn...) e mostra sempre o próximo ônibus/metrô/tram pra qualquer lugar. Em alguns países, ele informa também a malha de transportes regionais e de longa distância.


Para baixar o aplicativo no seu smartphone Android, clique aqui.

O país do bate-boca

Alemão adora uma discussão. Eles não conseguem evitar, faz parte da natureza deles. Momento feliz é aquele em que você consegue dar nos dedos do outro.

Exemplo: A Francis vai ao supermercado para comprar um limpador de carpetes, mas na hora de pedir informação à funcionária, dá um branco e ela não lembra mais como se fala carpete em alemão, aí diz:

– Com licença, vocês têm Karpettreiniger?
– O quê?
– Er... Karpettreiniger...
– A senhora quer dizer Parkettreiniger (limpador de parquet)?
Eu, rápido demais:
– Isso!
Depois que ela me mostrou o limpador de parquet, eu lembrei como chamava o que eu queria.
– Desculpe, na verdade o que eu estou procurando é Teppichreiniger.
– Você disse Parkettreiniger.
– Eu sei, eu me enganei.
– Não é a mesma coisa. – momento "dar nos dedos". Trata-se de um comentário irrelevante e inútil que só serve para estressar o interlocutor.

Resposta de brasileira: 
– Me desculpe, eu me confundi. A senhora pode me indicar o Teppichreiniger, por favor?

Resposta de alemão, sem se abalar:
– Vocês têm Teppichreiniger ou não?

Dependendo da disposição das partes, o bate-boca pode se estender por vários minutos. E não vale só para senhorinhas no supermercado. Marmanjos no bar conseguem discutir – sem xingar – por uma quantidade de tempo inimaginável para os padrões brasileiros, onde o povo esquentado já parte para o sopapo na segunda resposta atravessada.

Por isso, quando um alemão começar a bater-boca com você e você tiver razão, não "deixe pra lá" só para não se incomodar, porque ele vai achar ganhou a discussão. Dê nos dedos.

O cavalheirismo alemão

A brasileira chega em Frankfurt com uma mala de 32kg (metade em pão de queijo, goiabada e erva-mate). Sobe no trem sozinha com a mala - não esperava que alguém fosse ajudar, mesmo -, com algum esforço consegue acomodar a mala entre dois bancos e, quando se vira para sentar, pergunta:

- Este lugar está livre?

Um homem de uns 40 ou 50 anos,  que entrou depois dela, dá um rápido passo à frente e responde:

- Não.

Quanto de carvão para o churrasco?


Pergunta simples, resposta simples, certo? Não na Alemanha. Aqui, para saber quanto de carvão é necessário para assar um quilo de carne, você precisa ter informações específicas.

A minha é um Kugelgrill
Qual o seu tipo de churrasqueira? É um Kugelgrill, um Standgrill, ou um Schwenkgrill? O churrasco é direto ou indireto? (oi?) É com carvão vegetal, briquete, gás ou eletricidade?

Espeto, que é bom, não tem.

Pesquisei uma boa meia hora na internet até achar uma informação útil: se for briquete, joga uns 20 na churrasqueira que dá. 

Como não tem espeto, me obriguei a improvisar na hora da picanha (que na Alemanha chama Tafelspitz, como eu já expliquei neste post aqui). Um medalhão por espetinho, do jeito gaúcho: sal grosso e fogo.

Picanha improvisada
Servi pra um amigo alemão e ele ficou bem impressionado com a carne. Me perguntou se era marinada. Quando eu disse que era feita só no sal grosso, arregalou o olho azul.

Detalhe, aqui quando a gente diz que vai botar o Tafelspitz na churrasqueira, os alemães quase têm uma síncope. "Mas isso é carne pra fazer cozida na panela!"

Aquela frescura toda é só pra assar salsicha. Ah, vá.

Como secar as mãos com uma toalha de papel

Este vídeo do TED mudou a minha vida. Desde que o assisti, por recomendação do amigo Oscar Schlenker, não gasto mais do que uma toalha de papel para secar as mãos em banheiros públicos.

O segredo: sacudir as mãos para tirar o excesso de água e dobrar a toalha para absorver melhor.



Em tempo: Funciona perfeitamente com as toalhas baratas dos banheiros da DW.

Fácil, né? Faça você também!

Índice de desenvolvimento sanitário

Estive na Suíça uma vez para passar o reveillon. O que mais me impressionou não foi nenhuma chiquice do país, que é um dos mais desenvolvidos do mundo (em grande parte graças a remessas escusas de dinheiro de países subdesenvolvidos – mas isso é assunto para outro post). O que mais me impressionou foi o número de banheiros públicos, e limpos, disponíveis nas estações turísticas. Não importa onde você esteja, sempre vai encontrar um banheiro num raio de, no máximo, 100 metros.

Aí comparei com o Brasil, onde geralmente os banheiros são raros, sujos e sem papel ou sabonete. E pensei que um banheiro não é assim uma coisa tão cara que só se possa ter na Suíça, afinal. Acho que é muito mais uma forma de estabelecer um padrão mínimo aceitável de bem-estar. E evitar constrangimentos pela falta de um toilete na hora do aperto é apenas um desses "luxos".

Marido sai de férias e esquece mulher em casa

A história verídica aconteceu ontem em Bonn. Günther, de 73 anos, dirigiu por horas sem se dar conta de que sua mulher, Gerda, da mesma idade, não estava no banco de trás, como de costume. Ele a esquecera em casa.

Quando foi entrar no carro para a viagem de férias com o marido, Gerda só viu as luzes traseiras. Ela ficou esperando durante horas, certa de que ele voltaria logo para buscá-la.

Mas ele não voltou. Dirigia tranquilo em direção a Schleswig-Holstein. Nisso, os vizinhos acolheram a mulher desesperada, que avisou a polícia – preocupada com o seu Günther. Os policiais de Bonn avisaram seus colegas na cidade de destino, que a princípio não tinham nenhuma pista do marido.

Quando Günther finalmente foi localizado pelo celular, se mostrou muito surpreso. "Ele disse não ter percebido que sua mulher não estava no carro", disse Christoph Schnur, porta-voz da Polícia de Bonn. O aposentado prometeu voltar para buscar sua Gerda.

 Este texto é uma adaptação da matéria publicada no diário popular Express. "Este casal não deve conversar muito", concluiu a autora da matéria. Clique aqui para ler o artigo completo em alemão.

A sabatina da aspirina

Da última vez que fiquei resfriada, fui à farmácia pra comprar um antigripal qualquer. Pedi comprimidos para resfriado e a atendente me perguntou: quais os sintomas?

Eu: "oi?"

Ela pacientemente me explicou que se eu estivesse com febre e dor de cabeça, o melhor seria tomar o remédio X, mas se o problema fosse tosse e dor de garganta, ela indicaria o Y - e disse mais um monte de coisa que eu nunca tinha pensado sobre gripe. Como nunca tive que explicar sintomas de resfriado em farmácia, levei um tempo até encontrar o vocabulário em alemão, e ela acabou por me dar um remédio que também combateria a tosse que "provavelmente viria a seguir".

Com tanto profissionalismo, virei freguesa.


Por que na Alemanha não tem arrastão em bar

A nova moda entre os criminosos de São Paulo é entrar armado em restaurante, de preferência em bairro chique, e assaltar todo mundo. Tem acontecido quase todo dia. O comentário de uma leitora em um post polêmico do Blog do Sakamoto chamou a minha atenção. Ela disse que em países "civilizados", isso não aconteceria. Suposição correta, justificativa errada.

Na Alemanha, arrastões em bares não acontecem por alguns motivos simples. Primeiro, porque na Alemanha os pobres não são tantos nem tão pobres como no Brasil. Segundo, porque na Alemanha os ricos também não são tão ricos quanto no Brasil. Além do mais, a educação de qualidade e a formação profissional são acessíveis a praticamente 100% da população, e a criminalidade é tratada como problema estrutural.

Então não é uma questão de "civilidade", de "boa educação", mas de justiça social. Esse simples fator elimina aquela raiva que faz os mais pobres quererem tomar o que é dos ricos à força, para satisfazer um desejo de vingança pelo desrespeito aos seus direitos fundamentais.

A violência no Brasil é fruto da mentalidade de uma classe rica que considera a pobreza um estorvo e acha que não tem nada a ver com isso; e de uma classe pobre que se acha coitadinha e que, em vez de exercer pressão social nas urnas, ri de si mesma ao votar em "tiriricas" e prefere roubar de quem tem mais - mesmo daqueles que conseguiram o muito que têm com trabalho, não por corrupção. 

E a arena para toda essa tensão é um consumismo esquizofrênico e desproporcional à capacidade financeira dos brasileiros - que acham que precisam de uma TV gigante ou de um iPad, mesmo que ele seja um item supérfluo, inútil e custe cinco vezes mais do que nos Estados Unidos, em cujo padrão de consumo o Brasil erroneamente se inspira.

A crítica não se aplica, é claro, àqueles que, mesmo com alto poder aquisitivo, são conscientes e não perdem a perspectiva sobre a sociedade, e também aos muitos pobres que, apesar das dificuldades, são honestos e trabalham duro para ganhar a vida com dignidade.

O Brasil é violento porque é injusto e ganancioso. E ainda não entendeu que, como na Alemanha, por exemplo, o importante é ser um país rico, e não um país de ricos.

Mudanças sutis no Egito

Assisti a uma palestra da documentarista egípcia Amal Ramsis na semana passada durante o Global Media Forum, e ela contou uma história interessante sobre as transformações no país.

Foto: Rudolf Thome

No centro do Cairo existe um muro, como o Muro de Berlim, cercando o Ministério do Interior. Todos os dias, desde o início da revolução, grafiteiros vão até lá para desenhar mensagens críticas ao governo ou de esperaça para o povo. Pelo menos uma vez por semana, os militares pintam o muro todo de branco outra vez. No dia seguinte, os grafiteiros voltam, agradecem pela pintura e começam a preencher o espaço com arte urbana outra vez.

Só que antes no início da revolução, os grafiteiros desenhavam no muro de madrugada, e os militares pintavam de branco durante o dia. Hoje, sabendo que são protegidos pela população, os grafiteiros desenham de dia, e os militarem pintam de branco de madrugada, escondidos.

 Uma coleção incrível de fotos está disponível no site de Rudolf Thome.

Fralda, digo, calcinha alemã

Última moda em Bonn. "Mostre-se ao verão do seu melhor lado", diz.















Para desespero das brasileiras.

O drama das sacolinhas de plástico

Tenho acompanhado a discussão no Brasil sobre o fim da distribuição de sacolas plásticas nos supermercados e, sinceramente, não consigo acreditar que tem gente mais preocupada com quanto as redes de supermercado vão ganhar com a venda de sacolas plásticas do que em mudar seu próprio comportamento e adotar uma atitude mais sustentável.

Para quem ainda não entendeu, o fato de se ter que pagar por uma sacola plástica é justamente uma medida para inibir o uso, não para "enriquecer" supermercados. E não precisa esperar para fazer a sua parte só depois que o governo tomar as trezentas e oito ações sustentáveis que você acha mais importantes. As mudanças positivas não precisam ser lineares.

Aqui na Alemanha essa discussão já foi superada há muito tempo. A jornada dos produtos no supermercado funciona assim:

1. Da prateleira para o carrinho
2. Do carrinho para a esteira do caixa
3. Da esteira de volta para o carrinho (sem sacolas)
4. O carrinho vai até o carro
5. Dentro do porta-malas você tem caixas assim:

6. Passa os produtos do carrinho para as caixas
7. Em casa, leva as caixas pra dentro e passa os produtos direto delas para os armários.

Quem não tem carro, leva sacolas de pano ou carrinhos como este:


Isso que no Brasil ainda tem a mordomia de entregarem as compras em casa, coisa que na Alemanha não existe.

E não se preocupe, depois da segunda vez que você tiver que sair do supermercado como um equilibrista, carregando tudo na mão, não vai mais esquecer a sacola retornável em casa.

Denke ich... no Facebook

Entreguei minha dissertação de mestrado hoje (viva!).
Estou naquele momento em que a gente não sabe o que fazer com tanto tempo livre, e achei que era uma boa oportunidade pra reativar o pobre do Denke ich... que tá aqui largado no canto faz tempo. Pois o blog agora volta mais ativo do que nunca, diretamente da terra da batata.

E pra mostrar que as intenções são nobres, acabo de lançar a página do Denke ich... no Facebook:

www.facebook.com/DenkeIch

Se você curte aqui, curta lá também! :)

Serviços de primeiro mundo

Minha operadora alemã de telefonia celular me liga pra oferecer uma tarifa mais baixa e com mais serviços. Por menos de 25 euros por mês, além dos serviços que eu já tenho - internet ilimitada, sms ilimitados para qualquer operadora e chamadas ilimitadas para números da mesma operadora - me oferece também ligações ilimitadas para telefone fixo.

Eu, desconfiada, como todo consumidor brasileiro, pergunto: Mas por que vocês estão me fazendo essa oferta? O que vocês ganham com isso?

O operador, meio surpreso: Hã, nada, é só uma atualização do serviço. A nova tarifa já vale para os novos clientes e queremos oferecê-la também aos clientes antigos. A senhora aceita se quiser.

Eu, ainda desconfiada: Não, muito obrigada - esperando ele insistir.

Ele: Pois não, tenha um bom dia.

E desligou.

Humor alemão

Rapidinho, só pra contar essa piada verídica.
Entrei hoje no ônibus e atrás de mim entrou uma velhinha, bem velhina, com um daqueles andadores para idosos, um poodle na cestinha e uma peruca loira. Ela não conseguia subir o degrau pra sentar ao meu lado e segurar o andador ao mesmo tempo, então perguntei:

- A senhora precisa de ajuda?

Repeti umas três vezes, porque ela não ouvia muito bem, e quando ela finalmente entendeu, respondeu:

- Você chegou com cem anos de atraso...

A hora da furadeira

Quando começaram a reforma do meu prédio em Bonn, no ano passado, eu achei que era sadismo do engenheiro ou dos trabalhadores da obra. Mas agora que a rotina se repete na reforma do apartamento do vizinho em Bremen, cheguei à conclusão de que é coisa de alemão, mesmo.

 Às 7h30 da manhã, em ponto, eles ligam a furadeira. Para os alemães, expediente de obra é das 7h30 às 15h30. E pregos e parafusos devem ser colocados de preferência na primeira hora.

Tudo para, às 16h, o silêncio poder reinar novamente.

O insulto e a redenção

Fim de semana fui a uma grande loja de artigos esportivos em Colônia. Adoro aquela loja. A única coisa que não gosto é a dificuldade de transitar pelos andares, porque as escadas são escondidas, então sobra apenas um elevador panorâmico.

Corri para dentro quando o elevador abriu a porta, semi-lotado, e só então notei o senhor japonês que estava esperando na minha frente. Ele ficou parado me olhando sério, segurando a mão de um menino de uns seis anos.

Senti a maior vergonha do mundo e me ofereci pra sair e dar lugar a eles, mas ele disse que não precisava - além do mais eu já estava causando tumulto suficiente entre os passageiros (se diz passageiro pra elevador?).

Saí da loja uma meia hora depois ainda me martirizando por ter passado na frente do senhor e do menino. Pra amenizar a vergonha, e na esperança de ser perdoada, comentei com meu namorado quando já estávamos no meio da rua:

"Ah, tudo bem, eles eram japoneses. Eles são um povo nobre."

Foi quando um jovem japonês que caminhava à nossa frente - e que eu não tinha visto - se virou, sorriu pra mim e acenou com a cabeça.

Me redimi.