O sossego de domingo

Acabo de descobrir que é proibido cortar grama no domingo. Mal eu liguei o cortador, a vizinha veio correndo dizer para eu por favor não fazer aquilo, senão a polícia ia acabar batendo ali em casa.

Aí descobri que o barulho no domingo é proibido por lei, de acordo com o tal Sonntagsruhe (o sossego de domingo), que também regula o trabalho aos domingos - em geral proibido.

Pela lei, além de não poder cortar a grama, aos domingos eu também não posso realizar nenhuma atividade barulhenta, como botar pregos na parede, despejar vidros no contêiner de vidros, etc. A Baviera é o estado onde a lei é mais rígida, por ser também o estado mais católico do país.

Aliás, cortar grama é uma atividade estritamente controlada. Só pode de segunda a sábado, das 9h às 13h e das 15h às 17h.

Ligar a furadeira às 7h30 da manhã pode.
Ah, Deutschland. ¬¬

Moto versus bicicleta

Depois de quase quatro anos morando num país, a capacidade de se surpreender e reconhecer diferenças entre duas culturas vai diminuindo, e às vezes é preciso ver através dos olhos dos outros pra enxergar as coisas.

Por exemplo, uma das coisas que genuinamente espantaram meu namorado na primeira vez que ele foi ao Brasil – junto com as cercas elétricas e o risco permenente e iminente de levar choque no chuveiro – foi o número de motoqueiros nas estradas, e como eles dirigem entre os carros, de shorts e camiseta.

Aqui na Alemanha – e na França, de onde ele vem – a moto é usada mais por esporte do que como meio de transporte. E os motoqueiros estão sempre de calças e jaquetas de couro ou outro material resistente, para proteger o corpo do motorista em caso de queda.

Aí fiquei pensando, na Alemanha moto é esporte, e bicicleta é meio de transporte. No Brasil é justamente o contrário. 


O romantismo germânico

Alemão é um bicho meio devagar quando se trata de amor. Há quem diga que os alemães vão entrar em extinção pela dificuldade em se relacionar. Não tive experiência própria, mas vários testemunhos e evidências.

Uma paquera alemã é algo que precisa de tempo para amadurecer. Duas pessoas que se gostam primeiro se olham durante um mês, até que uma das partes resolve dar um sorriso. Mais um mês de sorrisos até o primeiro "oi". Dois meses de oi até o primeiro "Na?", que é algo tipo "e aí?", e abre espaço para conversação. Chega-se na fase de sair juntos pra tomar um café, o que pode durar vários meses antes do primeiro beijo. Ou seja, uma pessoa precisa investir um bom tempo na outra antes de saber se afinal rola química ou não. Quando a resposta é não, começa tudo outra vez com o próximo pretendente. Schade!

Para dar um empurrãozinho, existe há muito tempo nos jornais locais – e mais recentemente nas redes sociais – um serviço de apoio a admiradores secretos. São pessoas que viram outras na rua, no trem, na biblioteca, se encantaram, mas não tiveram coragem de puxar papo na hora. Aí, mais tarde, escrevem para o jornal ou site em busca da pessoa amada. Algo assim:

"Estou à procura de um jovem de mais ou menos 20 anos do Friedrich-List-Berufskolleg em Bad Godesberg. Hoje você estava com um boné e pegou a linha 16 em direção à Plittersdorferstraße e desembarcou na estação central. Você estava jogando em um Galaxy S3 branco. Há meses eu tento descobrir o seu nome... por favor, entre em contato!"

Ou...

"Olá! Eu (homem, 24) te vi hoje em Bonn, nos cruzamos na porta do prédio na Riesengebirgsstraße 8. Você tem longos cabelos escuros e um rosto tão encantador! Você não me sai mais da cabeça, eu preciso te conhecer. Espero encontrar aqui alguém que possa me dizer quem você é! Vi você pegar o ônibus. Por favor, entre em contato!"

Mensagens assim são publicadas como quem lança uma garrafa ao mar e podem nunca ser lidas pela pessoa amada, mas os apaixonados tentam a sorte assim mesmo. E vez por outra as pessoas se encontram e ficam juntas.

No Facebook existem cinco centrais de mensagens amorosas só para Bonn: duas da cidade, duas da universidade e uma da biblioteca universitária.

Ficou curioso? Dá uma olhada: